O leilão de sobras de frequência da Anatel, o primeiro da história a permitir a participação de pequenos provedores regionais de internet, despertou o apetite de investidores nacionais e estrangeiros, que vislumbram a consolidação do mercado de banda larga no país. “Já recebemos várias ofertas de compra”, revela Juliano Rastelli, presidente da iConecta, que atende 20 municípios localizados no sul de Minas Gerais e no leste paulista. Para ele, trata-se de um movimento natural e esperado.

Se por um lado a tecnologia móvel de transmissão de dados de quarta geração para implementar essas licenças, a 4G LTE (Long Term Evolution), traz benefícios às redes – estabilidade e rapidez, além de duplicar o número de usuários conectados, ela envolve também investimentos elevados, que certamente vão impactar no orçamento de muitos provedores regionais. O investidor, com 20 provedores pequenos sob seu controle, poderá atingir uma margem superior a 100 mil assinantes, ampliando as chances de normatização, planejamento, volume de compras, definição de fornecedores e otimização de ativos.

Tive a sorte de ser amigo de um grande conhecedor do 4G LTE, que inclusive me incentivou a participar do leilão”, lembra Rastelli. A iConecta pagou pelos lotes para operar em 60 cidades R$ 3,5 milhões, a serem quitados em 10 anos. Antes de ter sua licença liberada, sem qualquer tipo de pendência, em maio de 2017, já contava com planejamento e conhecimento técnicos consistentes para enfrentar os desafios da nova tecnologia. Isso permitiu que fosse a primeira a colocar em produção um projeto-piloto de conexão internet móvel na modalidade.

Só para a licença de Ouro Fino, sua principal área de atuação, que reúne cerca de 34 mil habitantes, foram pagos R$ 35 mil. A provedora, que atende hoje 4 mil usuários, 90% deles residenciais, passará a levar 4G-LTE para 60 cidades, a velocidade média de 20 Mbps, cujo investimento está estimado em R$ 20 milhões. “Nossa estratégia foi escolher e dar lances em localidades que já oferecemos serviços ou planejamos a expansão”, conta Rastelli. Com a nova tecnologia, a iConecta pretende chegar a 20 mil assinantes, nos próximos dois anos, aumentar sua carteira de clientes corporativos e trabalhar a portabilidade,” único produto que até agora os pequenos provedores estavam privados de oferecer.”, observou.

Bala na agulha 

No início da implantação, nem tudo foi céu de brigadeiro. Surpresas ocorreram antes da fase preparatória: os equipamentos eram bem mais caros do que o previsto, de difícil aquisição, além de faltar aos provedores iniciativas conjuntas para negociar melhor com fornecedores. “Achava que as pessoas complicavam muito o processo. Mas de fato o projeto demanda muito estudo e alto investimento”, atesta.

Há 18 meses, a empresa vem negociando com um investidor americano, cujo o nome é guardado em sigilo por questões estratégicas. O protocolo de intenções já foi assinado. Mas, até o momento, não havia sido realizado qualquer tipo de aporte financeiro. Os projetos-piloto, técnico e comercial estão sendo tocados totalmente com recursos próprios.

Em março, foi testado o funcionamento da operação em um site da chinesa ZTE, que levou banda larga a velocidade de 40 Mbps a funcionários e clientes antigos selecionados, no município de Ouro Fino. A experiência foi muito bem sucedida tecnicamente, nas áreas rural e urbana. A previsão é lançar o projeto-piloto comercial, ainda este mês. “Estamos agora na fase de precificação do produto”, complementa Rastelli.

Fornecedor único

Para evitar acidentes de percurso, antes de oferecer o serviço comercialmente, previsto para junho deste ano, nas cidades de Monte Sião, Inconfidentes, Bueno Brandão, Borda da Mata e Jacutinga, a empresa fez questão de analisar outros sites: Huawei, Airspan (Tropico) e Baicells (Khomp). A ideia é trabalhar futuramente com um único fornecedor. Por enquanto, segundo Rastelli, a Baicells tem apresentado as melhores ofertas no que diz respeito a preço, performance e financiamento.

Para conectar as cidades cobertas pela licença no leste paulista – Lindóia, Águas de Lindóia, Socorro, Bragança Paulista, São João de Boa Vista e Campos do Jordão – e ter redundância no sul de Minas Gerais, a iConecta está construindo um backbone de fibra óptica próprio. Em 2017, implantaram 5 mil postes para conectar 12 cidades nos dois estados. “A ideia é migrar todos os clientes do WiFi para LTE e oferecer algum tipo de mobilidade aos que já têm fibra”, acrescenta.

Embora a nova tecnologia não demande fibra óptica, o presidente da iConecta acredita ser essencial para a entrega de banda larga mais turbinada, garantindo segurança e redundância à transmissão. “As operadoras costumam usar microondas como alternativa”, exlica. A empresa começou a trabalhar com fibra óptica há três anos e tem hoje uma extensão de 500 km. Constam de sua relação de fornecedores a HP Cabos, FiberX Telecom e Prysmian.

Área rural é a missão

A iConecta é produto de um sonho que Rastelli alimentava durante sua estada de quatro anos em Chicago, nos Estados Unidos, trabalhando como entregador de pizza e office boy. Fundada em 2003, a empresa iniciou sua operação como provedora de internet discada para atender a população de Ouro Fino – uma região montanhosa com altitudes de até 1.600 metros, cortada por vales, situada no sul de Minas Gerais, a aproximadamente 180 km da cidade de São Paulo.

Conectividade em qualquer lugar, proximidade com o cliente e condições comerciais vantajosas são os principais atributos que iConecta faz questão de honrar com seus assinantes. “Em Ouro Fino, todos os usuários são atendidos diretamente por nós. Criamos laços de confiança e mantemos sempre a missão de levar internet às regiões mais remotas”, conta Rastelli. Cerca de 80% de sua carteira de clientes concentram-se nas áreas rurais das 20 cidades onde atua hoje.

Mestrandos da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, fizeram recentemente uma visita à iConecta para entender como pequenos provedores no país entregam banda larga em regiões com topografias tão acidentadas. “Não importa onde o cliente se encontra. Nós vamos até ele”, frisa Rastelli, que diz investir 30% do faturamento anual da empresa na ampliação de serviços em novos municípios. Há dois anos, postes a cavalo foram transportados para Inconfidentes, localizada no bairro Córrego do Onça, a 25 km de Ouro Fino.

Com exceção do setor de agronegócio, que costuma gozar de maior prosperidade no meio rural, o perfil do consumidor nessas localidades não costuma ser trivial. Muitos encontram-se em estado de total abandono e a renda torna-se um forte limitador para o acesso aos inúmeros aplicativos oferecidos pela internet. As operadoras Oi e Vivo são as líderes nessas regiões, mas os pequenos provedores que respondem por 2/3 do mercado rural nessas localidades.

Radio: dias contados

O crescimento da iConecta não foi planejado. Expandiu-se para onde havia demanda. As localidades nessas regiões, em sua maioria, é formada por pequenos centros urbanos com até 2 mil habitantes. “A baixa densidade de clientes complica até o uso de fibra óptica”, conta Rastelli. Segundo ele, ainda está em fase de seleção a cidade que estreará a tecnologia 4G LTE. Requisitos como taxa de penetração, concorrência, atendimento e disponibilidade de backbone de fibra óptica são levados em consideração na escolha. Com o 4G em operação, a empresa pretende instalar uma loja física em cada localidade de forma a atender melhor os usuários.

A empresa mantém acordos de aluguel de postes com várias concessionárias de energia elétrica: a Cemig responde por mais de 80% dos postes alugados, e cobra R$ 10,00 pelo aluguel de cada um; a CPFL até R$ 16,00. Com a Energiza está desenvolvendo um projeto novo para fibrar alguns bairros da cidade de Extrema.

A concorrência nas cidades do sul de Minas Gerais e leste paulista é acirrada no que tange a qualidade e preço dos serviços. A iConecta oferece WiFi, fibra óptica, rádio e futuramente LTE: R$ 65,00 por um pacote de conectividade de 8Mbps via rádio; R$ 75,00 por 8 Mbps via fibra óptica; chegando até 100 Mbps por R$ 299,00.

Para o executivo, uma coisa é certa: a conectividade de banda larga via rádio está com os dias contados. Tanto que os investimentos da provedora nessa modalidade já foram cancelados. “Não atendemos mais bairros rurais com rádio”, diz.