Do Tele.Síntese

A falta de planejamento urbano não se reflete só em vias que não suportam o tráfego crescente, em postes sobrecarregados de fios ou em ruas abertas a cada semana para instalação de novas tubulações ou manutenção de alguma delas. Está também nos prédios construídos sem atender as especificações para receber os modernos serviços de telecomunicações, os chamados triple play: voz, banda larga (dados) e vídeo. Como os dutos são estreitos, as operadoras passam os cabos por onde dá. Pela caixa do elevador, pela escada e até pela parte exterior do edifício.

Por fim a essa situação de caos nas construções, que já começa a provocar muitos transtornos e reclamações, foi o objetivo do Secovi-SP, o maior sindicato da habitação da América Latina, ao criar um grupo de trabalho para definir normas e procedimentos para orientar o projeto e a instalação de redes de telecomunicações em prédios e condomínios residenciais e comerciais. O trabalho começou em junho e conta com a parceria da Associação Brasileira de Engenharia de Sistemas Prediais (Abrasip), do Sindicato dos Engenheiros de São Paulo, da Convias da Secretaria de Obras da Prefeitura de São Paulo e da Telefônica.

Segundo Luiz Olimpio Costi, coordenador do GT e vice-presidente de comunicações da Abrasip, o novo manual vai estar pronto e disponível eletronicamente para todos os associados das entidades envolvidas no primeiro trimestre de 2018. “É uma iniciativa muito importante, porque vamos criar um padrão de desenvolvimento de projeto de instalações modernas de telecomunicações para a maioria das edificações residenciais, o que não existe hoje”, diz ele.

Para Marcius Vitale, engenheiro de redes e representante do Sindicato dos Engenheiros no GT, o trabalho em desenvolvimento tem grande relevância também para o planejamento urbano, pois vai disciplinar como as redes chegam aos prédios. E assim evitar parte dos transtornos provocados por obras e buracos em dutos e galerias.

Também vai criar condições para acelerar a implantação das redes de fibra ótica até a casa do cliente ou até o escritório (FTTX). Na Espanha, hoje o país europeu com a maior rede de FTTH implantada (sua rede é maior do que as da Inglaterra, Alemanha, França e Itália somadas), um dos fatores que contribuiu para o avanço da fibra, além das disposições regulatórios, foram as normas urbanas relativas às edificações.

Por incrível que pareça, o último manual de instalação de redes de telecomunicações prediais existente no estado de São Paulo é dos anos 1980, da época da Telesp e do Sistema Telebras e quando a comunicação existente nas casas e escritórios era apenas o serviço de telefonia fixa. De lá para cá, apesar do acelerado avanço tecnológico, da chegada da TV a cabo e da expansão da banda larga, nada foi feito para atualizar o velho manual. Daí as gambiarras frequentemente encontradas, mesmo em prédios construídos depois da década de 80 do século passado.

Costi observa que foram desenvolvidas normas para prédios e condomínios comerciais e residenciais de alto padrão com cabeamento estruturado, por meio da ABNT. “Como todo o trabalho no âmbito da ABNT é voluntário, ele só acontece quando há um forte interesse econômico, caso do segmento de prédios de alto padrão”, explica. Assim, prédios e condomínios de padrão médio, para a classe média e os prédios para baixa renda, ficaram no limbo regulatório.
Com “força de lei”

Embora seja um manual, sem poder legal, e não uma norma técnica, Costi acredita que vai acabar se transformando, de fato, na bíblia dos projetistas. “O Secovi tem muita força e mesmo tendo atuação restrita ao estado de São Paulo, pelo seu peso, a iniciativa vai acabar repercutindo em todo o país”, diz ele.

O manual do Secovi-SP não é a primeira iniciativa de atualização das normas de instalação de sistema de telecomunicações em prédios. Recentemente, o Secovi-MG, em parceria com a Abrasip-MG, lançou um manual. Só que, segundo Costi, focou mais no serviço de voz e dados. E o trabalho atual tem foco na comunicação multimídia.

As recomendações técnicas do manual abrangem redes internas e também externas, no caso de condomínios. E contemplam a competição. Os projetistas de redes de telecom de prédios e condomínios deverão considerar espaço para pelo menos três competidores. Segundo Costi, esse foi o número médio de operadoras prestando serviços em prédios e condomínios de São Paulo, segundo pesquisa informal realizada pelo Secovi.

A ideia dos integrantes do GT não é deixar o novo manual envelhecer em uma base de dados, já que ele só terá versão eletrônica, como o anterior. “Vamos atualizá-lo periodicamente”, promete Costi, também sócio-diretor da Procion Engenharia.