A importância dos provedores regionais para o agronegócio


Ricardo Melzani Bortolotti (*)

Responsável por US$ 100,8 bilhões em exportações em 2020, o agronegócio brasileiro figura entre os setores da economia nacional que mais consomem tecnologia. Ainda assim, agricultura e pecuária brasileiras ficam muito atrás das de outros mercados no que se refere à adoção de IoT, Machine Deep Learning, dentre outras inovações que compõem a chamada agricultura 4.0. A razão para essa defasagem é a falta de conectividade.

Embora a extensão territorial propicie ao país vastas áreas destináveis ao agribusiness, tornando o Brasil o chamado “celeiro do mundo”, o mesmo fator acaba por colocar o setor em condição desvantajosa no que se refere à adoção de tecnologias voltadas à produção no campo e que têm proporcionado grandes ganhos de produtividade em outros países.

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É justamente o tamanho de boa parte das fazendas no país que faz com que uma antena ou rede de fibra ótica sirva exclusivamente a uma única propriedade, o que elimina o interesse comercial das grandes operadoras pela atuação nessas áreas. Novamente, como ocorre na maior parte das regiões afastadas dos grandes centros do país, são os provedores regionais de Internet que passam a garantir a conectividade.

A Agricultura 4.0 caracteriza-se pelo uso simultâneo de diferentes tecnologias. Nela, o maquinário – tratores, colheitadeiras e caminhões – tem seus percursos traçados centímetro a centímetro por inteligência artificial, a fim de minimizar a compressão do solo e garantir a fertilidade em maior área. Silos informam colheitadeiras em tempo real qual seu percentual de ocupação para direcioná-las aos que estão com maior capacidade disponível para armazenamento; sensores registram e transmitem a gestores informações como peso, frequência de cada animal nos coxos e as vacinas que lhe foram aplicadas, dentre outros. É desta forma que concorrentes do agronegócio brasileiro têm registrado ganhos de produtividade inimagináveis até poucos anos atrás.

Novamente, como dito acima, os empresários e gestores do agribusiness nacional são grandes usuários de tecnologia, a qual empregam intensamente, há anos, em suas operações logísticas. Para levá-la à produção, demandam de conexão de Internet que proporcione o envio de informações de sensores para máquinas. Para isso, passam a recorrer, de forma crescente, aos ISPs, por conta do crescimento dessas empresas, desenvolvimento tecnológico e de sua distribuição geográfica. Isso tem ocorrido não apenas via contratação de serviços, mas também por meio de aquisições e contratos de exclusividade no fornecimento.

A chegada de tecnologias emergentes ao campo é mais um fator que impulsiona os investimentos nos provedores regionais de Internet. Cada vez mais, o segmento torna-se alvo de aportes financeiros, fusões e aquisições. Esse capital chega ao setor por causa do crescimento das PPPs que, segundo a Anatel, concentravam, em novembro de 2020, 71% da rede nacional de fibra ótica, após um salto de 73% no número de acessos em doze meses.

Empresários do agronegócio são demasiadamente familiarizados – e muito bem assessorados – no mundo dos negócios. O interesse pelos ISPs, seja em investir, adquirir ou obter fornecimento exclusivo para suas propriedades, proporciona oportunidades de grandes ganhos financeiros aos executivos dos provedores. Isso, porém, restringe-se àqueles que mantêm suas obrigações legais e gestão administrativa em dia.

Não é o que se observa. Ainda, conforme a Anatel, as prestadoras de pequeno porte têm lhe enviado dados com atraso. Em outubro último, por exemplo, quase 900 mil acessos via banda larga deixaram de ser informados por empresas que enviaram o SICI à agência fora do prazo, sendo que a falta do relato dentro do prazo ao órgão regulador configura, mesmo no pós-outorga, exercício irregular da prestação de serviços de telecomunicações.

Este é um dos exemplos que ilustram o descuido de empresários e gestores dos ISPs quanto à parte burocrática de suas atividades, o qual pode levar suas empresas à ilegalidade que, além de resultar na perda de oportunidades, implica em multas e até em detenção. Entende-se que esses executivos concentram-se principalmente na parte operacional de seus negócios.

Porém, o crescimento do setor passa necessariamente pela profissionalização da gestão administrativa e da observância permanente das obrigações perante Anatel, Crea, CFT, concessionárias de energia e Fisco, o que demanda a contratação de boas assessorias especializadas no segmento. Há no mercado sistemas de gestão destinados especificamente a provedores que, ao contrário dos genéricos, atendem às demandas do segmento, com soluções específicas como emissão de notas para prestação de serviços de telecomunicações (modelo 21/22), geração do arquivo do SICI – que em breve será DICI, e outras obrigações inerentes ao setor.

As PPPs prestam há anos um serviço essencial ao país ao disponibilizarem acesso à Internet na maior parte do território nacional. A partir de agora, a importância dessas empresas cresce, já que serão elas que também possibilitarão o uso de novas tecnologias por setores fundamentais para a economia e que têm sua produção localizada longe dos grandes centros urbanos, área em que as grandes teles concentram suas ofertas.


(*) Ricardo Melzani Bortolotti é gerente de tecnologia da RadiusNet, empresa especializada em software de gestão para provedores de internet.

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