Conectividade e telemedicina: uma oportunidade para o Brasil


*Por Rodrigo Mancilha – O Brasil ocupa uma posição singular no mundo: possui uma das cinco maiores redes de fibra óptica do planeta e lidera rankings globais em competitividade e conectividade. Ao mesmo tempo, é um país com mais de 200 milhões de habitantes, dos quais cerca de 76% dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS). A pergunta que fica é: como aproveitar a potencialidade dessa infraestrutura digital como alavanca para ampliar e melhorar o acesso à saúde primária?

O SUS realiza aproximadamente 2,8 bilhões de atendimentos por ano e é uma das maiores experiências globais de universalização do cuidado em saúde. Mas enfrenta gargalos históricos: mais de 100 milhões de brasileiros relatam dificuldades para acessar consultas e exames, com longas esperas sobretudo para atenção especializada. Esse cenário é agravado pela distribuição irregular de profissionais e pelos “vazios assistenciais” em regiões remotas e periféricas.

A internet já chegou a 93,6% dos domicílios brasileiros, com expansão expressiva inclusive em áreas rurais, impulsionada por provedores regionais de banda larga. Esse avanço não é apenas conquista de inclusão digital — é insumo estratégico para a saúde pública. Em um sistema de escala continental como o SUS, redes estáveis e capilarizadas viabilizam regulação assistencial, prontuários compartilhados, laudos remotos, telemonitoramento e coordenação do cuidado em rede. A infraestrutura já existe. O desafio é usá-la com mais inteligência.

É justamente aqui que a telemedicina entra como resposta concreta. Por meio de videoconferências, aplicativos e dispositivos de monitoramento remoto, ela permite atender pacientes à distância com segurança, reduzindo barreiras geográficas que ainda separam milhões de brasileiros de um diagnóstico a tempo. As vantagens são bem documentadas: ampliação do acesso em áreas remotas, redução de custos e de internações evitáveis, agilidade no atendimento, monitoramento contínuo de pacientes crônicos e suporte à saúde mental — campo especialmente carente fora dos grandes centros.

À luz da distinção legal entre serviços de telecomunicações e Serviços de Valor Adicionado (SVA), abre-se espaço para organizar soluções digitais de saúde em camadas regulatórias distintas. Surgem, assim, oportunidades para um ambiente regulatório mais coerente com a convergência tecnológica e com os novos modelos de oferta de serviços digitais. É nesse espaço recém-aberto que aparece a possibilidade de oferta de serviços de telemedicina por prestadores regionais. Em síntese, o provedor de internet, que já é referência para serviços de conectividade, também pode ampliar o relacionamento com seus clientes por meio de novos serviços digitais, dentre os quais a saúde surge como absoluta prioridade para a população.

No âmbito institucional, o Programa Telessaúde Brasil Redes já aponta o caminho: conecta profissionais da atenção básica a especialistas por teleconsultorias, telediagnósticos e tele-educação, fortalecendo a resolutividade do cuidado primário sem exigir deslocamentos custosos. A telemedicina não substitui a consulta presencial — é um complemento que potencializa o sistema onde ele mais precisa.

A convergência entre a robusta infraestrutura de telecomunicações do Brasil e as ferramentas de telessaúde representa uma oportunidade histórica. Provedores regionais de internet, já referência de conectividade no interior, têm condições de ampliar seu papel ao ofertar plataformas de saúde digital e assim contribuir para maior satisfação de seus assinantes.

Um país com uma das redes de fibra mais competitivas do mundo deve pensar nesse ativo como instrumento de apoio à saúde e ajudar a reduzir deslocamentos evitáveis, ampliar a resolutividade da atenção primária, qualificar o encaminhamento para especialistas, racionalizar filas e favorecer o acompanhamento longitudinal de pacientes crônicos. Usar a conectividade como ponte para os brasileiros mais necessitados não é apenas inovação tecnológica — é política pública de saúde e de redução de desigualdades.

*Rodrigo Mancilha é fundador e CEO da CS Saúde, empresa que desenvolve soluções de saúde digital e telemedicina voltadas à ampliação do acesso à saúde no Brasil. Atua no desenvolvimento de modelos que integram plataformas tecnológicas, conectividade e serviços médicos.

Previous Data centers In a Box ampliam atuação de ISPs
Next Avança compra provedor no Vale do Paraíba e entra no mercado paulista