Por Marcius Vitale*

Na aviação a desorientação espacial é responsável por inúmeros acidentes fatais, pois o piloto não consegue determinar acuradamente sua localização quando em voo.

O mesmo conceito verificado no setor de aviação, pode ser utilizado, para realizar uma analogia com o segmento de infraestrutura de telecomunicações urbana no Brasil.

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Nas redes urbanas de telecomunicações estamos realizando um voo cego, dentro de uma densa camada de nuvens denominada “Cumulus Nimbus”, sem podermos observar com clareza o horizonte da tecnologia e a prática da boa engenharia.

Para comprovarmos este voo cego, basta observarmos a condição caótica das nossas redes de cabos pendurados em postes em diversas cidades, que denotam que muitos pilotos do setor estão navegando sem uma orientação adequada, conduzindo a “aeronave infraestrutura”, rumo a um possível acidente, com risco de perda total.

Há quatro anos o SEESP – Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo, criou um grupo de trabalho, formado por profissionais detentores de expertise e notórios conhecimentos no setor de redes de telecomunicações, com a missão de propor medidas técnicas a serem adotadas, para a minimização dos inúmeros problemas detectados no campo.

O citado grupo de trabalho, sob minha coordenação, levantou cerca de 90 pontos ofensores, que podem comprometer o bom desempenho da infraestrutura urbana de redes no Brasil.

Dentre os pontos impactantes levantados, para que sejam sanados, muitos só dependem da gestão dos ocupantes da infraestrutura, sendo que os mais críticos, necessitam de uma atuação maior por parte dos que criam as regras, normas e resoluções a serem cumpridas.

Dos 90 pontos críticos levantados pelo grupo, cito alguns exemplos selecionados aleatoriamente, sendo que os demais possuem a mesma relevância.

– Especificações técnicas das companhias de energia defasadas, criadas numa época que tínhamos poucos ocupantes, instalando cabos nos postes brasileiros;

– Excesso de ocupantes para a utilização de somente seis pontos de fixação nos postes;

– Algumas redes implantadas a revelia sem autorização das elétricas;

– Não atendimento as normas de segurança NR10 e NR35;

– Falhas no treinamento técnico e certificação da mão de obra;

– Utilização de muitos produtos não certificados;

– Carência de empresas especializadas em fiscalização de infraestrutura;

– Presença de cabos mortos em postes (sem utilização) em quantidade assustadora, ocupando espaços de forma desordenada e a revelia;

– Desordem na fixação de caixas de emenda, reservas técnicas e entre os vãos dos postes;

Este voo cego no interior da densa camada de nuvens, tem uma ligação direta com a queda na qualidade dos serviços prestados, gerando uma poluição visual do cenário urbano e grande risco de acidentes para os técnicos das ocupantes e população, que gravitam nas proximidades dessa infraestrutura.

Para complicar ainda mais o nebuloso cenário, não existe comunicação clara entre os diversos atores, que possa facilitar o “azeitamento” de ações para a organização e ordenamento do caos das redes aéreas.

Somente com uma coordenação centralizada e autônoma, que possa se responsabilizar pela condução integrada dos projetos, é que conseguiremos pousar a “aeronave infraestrutura” no aeroporto do sucesso.

Sem esta gestão composta por um time de experts, com notórios conhecimentos da realidade e do que deve ser implementado no campo, continuaremos enxugando o denso gelo localizado nesses “Cumulus Nimbus” das redes de telecomunicações urbana.

Para finalizar este artigo:

“Não basta saber, é preciso também aplicar, não basta querer é preciso também agir”.(Goethe)

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*Marcius Vitale é engenheiro, CEO da Vitale Consultoria e presidente da Adinatel.