Do Panorama Setorial da Internet

Milton Kashiwakura, do Núcleo de Informação do Ponto BR – NIC.br, comenta o projeto IX.br (Ponto de Intercâmbio de Internet – IXP) e a  importância dos Pontos de Troca de Tráfego, projeto executado pelo NIC.br com apoio de várias instituições de governo e da RNP, aprovado pelo Comitê Gestor da Internet (CGI.br), para o desenvolvimento e a melhoria da qualidade da internet no Brasil.

PS – Os Pontos de Troca de Tráfego (PTT), que já estão presentes em todas as regiões do país, consistem em uma infraestrutura física que favorece o trânsito da informação trocada na internet entre provedores de acesso, redes acadêmicas, redes de governo, de grandes empresas e de conteúdo e pode beneficiar a todos os usuários. Você poderia nos dar uma visão geral sobre o que são e como atuam os Pontos de Troca de Tráfego?
MK – Os Pontos de Troca de Tráfego são muito interessantes à medida que facilitam a interligação das diversas redes que compõem a internet. A partir de um PTT, um participante que queira se interligar a vários outros encontra uma infraestrutura disponível na qual diversos outros atores da rede já estão presentes. Desse modo, torna-se possível reduzir custos e aumentar a eficiência na troca de tráfego entre redes. Tomemos como exemplo o caso de São Paulo, onde já temos quase mil redes de Sistemas Autônomos (AS) conectados nessa infraestrutura. Quando um novo participante se conecta ao PTT, ele já estará automaticamente interligado com todos esses outros AS. Imagine você trocar tráfego internet automaticamente com essas mil redes que já estão presentes!

Além disso, da perspectiva de um provedor de conteúdo que deseja disponibilizar seu conteúdo, se ele estiver numa localidade desse tipo, esse conteúdo vai rapidamente se disseminar e beneficiar os provedores que já estão conectados. Por isso, essa infraestrutura facilita muito toda a distribuição de tráfego e de conteúdo na rede. É importante frisar que esse conteúdo de troca de tráfego não está aberto para todo mundo, mas apenas para aquelas redes que a gente chama de Sistemas Autônomos. Essas redes são sistemas autônomos depois de passarem por todo um procedimento e uma avaliação, feitos pelo Registro.br, que garantam que elas tenham uma infraestrutura disponível e apta para servir aos seus clientes e, também, aos demais integrantes do PTT, de forma que todos sejam de fato beneficiados. Ao se enquadrar nessas regras, o provedor recebe uma numeração que identifica a sua rede, tornando-o um Sistema Autônomo, que, por sua vez, poderá conectar-se ao PTT.

PS – Então os provedores devem se tornar um Sistema Autônomo para poder participar?
MK – Sim. E é importante lembrar que Sistemas Autônomso não são apenas redes de provedores de acesso. Podem ser, também, redes de  conteúdo, redes de banco, grandes empresas, universidades, governo etc.

PS – E que requisitos essas redes precisam ter para se tornar um Sistema Autônomo?
MK – Elas precisam ter uma rede de um determinado tamanho, que é medido pela quantidade de endereços IP, e estes são direcionados aos sistemas finais que podem ser computadores, tablets, celulares, servidores etc. Esse é o primeiro requisito. O próximo requisito é com relação à compra de trânsito. O provedor precisa ter opções de rotas, ou seja, ser possível encaminhar seu tráfego internet por mais de um caminho. Para poder atender a esse requisito, precisa ser um sistema autônomo. Ao mesmo tempo, o PTT também ajuda nesse quesito, à medida em que oferece vários caminhos distintos às redes de provedores que nele estão conectadas. Esses são os dois grandes requisitos, tamanho da rede e essa diversidade de caminhos com a internet.

PS – O IX.br é o maior ponto de troca de tráfego no mundo em termos de número de participantes. Como ele se coloca frente a outras iniciativas nacionais e internacionais?
MK – A estrutura dos PTTs pode ser considerada simples ou de pequeno porte, quando tem poucos participantes que podem ser atendidos com  equipamentos que chamamos de switch. No entanto, quando a estrutura começa a crescer, nem o maior switch que existe no mercado consegue  atender adequadamente. Nesses casos, faz-se necessário o uso de equipamentos interligados e de maior complexidade, às vezes só encontrados em roteadores. Isso requer, também, que façamos associação a outros operadores de ponto de troca de tráfego, em âmbito internacional. Atualmente, além de estarmos associados a associações de operadores de pontos de troca de tráfego internet, tanto da América Latina como da Europa, também fazemos parte do Board da Federação do Internet Exchange (IXP). O que permite, em primeiro lugar, trocar experiências de natureza técnica, operacional e estratégica. Como estruturas maiores implicam em maior complexidade, faz-se necessário um maior detalhamento de operações para a qual a troca de experiência é fundamental. Do mesmo modo em que técnicos do NIC.br já passaram algumas semanas em outros PTT ao redor do mundo, como, por exemplo, no Internet Exchange de Amsterdam, nós recebemos e treinamos técnicos de outros PTT, como foi o caso dos técnicos do PTT da Costa Rica treinados em São Paulo. Essa ajuda mútua entre os operadores de PTT é interessante porque, de certa maneira, padroniza a operação e é importante para poder desenvolver uma infraestrutura robusta e que funcione bem. O fato de sermos o maior PTT em número de participantes em âmbito mundial traz alguns desafios que outros IXP não enfrentam. Temos soluções que foram executadas aqui, por exemplo, que são únicas no mundo.

PS – Em que posição o IX.br se encontra em termos de tráfego trocado?
MK – Os maiores PTTs em âmbito mundial estão com um tráfego de 4 a 5 Tbits/s. No IX.br estamos com 1.4 Tbits/s no ponto de troca de tráfego de São Paulo. Isso nos coloca em uma posição privilegiada, o quinto maior do mundo e o maior do hemisfério sul. Enquanto a taxa de crescimento média dos PTT está na casa de 40% de crescimento ao ano, o tráfego do IX.br cresce 100% ao ano. Então, se continuarmos nesse ritmo, logo vamos igualar ou passar para primeiro do mundo, também em termos de tráfego. E tudo isso torna-se um desafio porque quem está na frente tem de enfrentar os desafios inerentes a essa posição, seja em volume de tráfego, seja em quantidade de participante.

PS – Você falou que só o PTT de São Paulo já tem um tráfego de 1.4 Tbits/s. Como se comportam as demais localidades? E em termos de participante?
MK – Temos 26 localidades com infraestrutura do IX.br em todo o Brasil. O PTT de São Paulo, sozinho, tem pico de 1.4 Tbits/s. Enquanto no agregado total chegamos a 1.8 Tbits/s. Em termos de número de participantes, só em São Paulo, temos mais de 950, mas cresce toda sema na. Muito provavelmente chegaremos a mil participantes nas próximas semanas. O PTT de São Paulo atingiu o que chamamos de um ciclo vir tuoso, já temos muito conteúdo local que atrai os provedores de acesso. Ao mesmo tempo que temos presentes os provedores de acesso, os  provedores de conteúdo querem se conectar, então entramos num ciclo virtuoso. Mas, em outras localidades, ainda está faltando que os pro vedores de conteúdo disponibilizem seu conteúdo para entrar nesse mesmo ciclo. Em alguns casos, as redes de conteúdo não querem investir e acham que um baixo número de participantes conectados em um PTT e baixo volume de tráfego internet trocado em uma determinada localidade o torna pouco atrativo. Além disso, nessas outras localidades, diferente das grandes capitais, a infraestrutura de banda e transporte costuma ser mais cara. Então, ainda encontramos provedores de conteúdo reticentes a investir nessas localidades. Por isso  lançamos um rateio de custo dessa infraestrutura envolvendo todas as localidades e participantes. Com isso, a ideia é facilitar com que os provedores consigam colocar seus conteúdos em outros locais rateando os custos necessários para isso. Esse projeto, chamado Open-CDN, está em fase de execução, mas já apresentamos em alguns fóruns e está tendo boa aceitação. O entendimento de todos é confluente sobre a necessidade de alavancar as localidades de PTT onde o tráfego não cresce a partir da chegada de provedores de conteúdo para que se possa ver um ciclo virtuoso.

PS – Você poderia explicar mais detalhadamente o que são estes CDN?
MK – CDN (Content Delivery Network ou Rede de Fornecimento de Conteúdo) é uma rede para distribuição de conteúdos, seja de provedores de  conteúdos ou de empresas especializadas – uma solução que surgiu no final da década de 1990, hoje considerada uma solução de núcleo  da rede. O que isso significa, efetivamente, é que ela integra a internet como replicadores de conteúdo a partir de três grandes centros de distribuição. No primeiro, ela armazena o conteúdo, é o centro de dados onde o conteúdo fica armazenado. Depois, numa segunda estrutura, que chamamos de rede CDN, replica o conteúdo em pontos localizados, principalmente nos grandes PTTs. Ou seja, ela interliga essas infraestruturas construindo uma rede de comunicação onde trafega os conteúdos mais acessados. E aí tem um terceiro centro, conhecido como cache do CDN. As CDNs negociam com os provedores de acesso que têm interesse e atendam a um mínimo de volume de seu conteúdo consumido pelos assinantes do ISP a colocação de cache dentro da rede dos provedores de acesso. Então, quando falamos de uma Rede de Distribuição de Conteúdo que não tem interesse de instalar em PTT menor, estamos referenciando a segunda estrutura, que é uma estrutura completa deles. Enquanto o cache são servidores disponibilizados para serem colocados dentro dos provedores de acesso. Quando isso acontece, os provedores de acesso precisam fornecer link de trânsito para as CDNs, para alimentar esses servidores, além de, também, precisar ceder uma infraestrutura mínima, com ar-condicionado, energia elétrica suficiente, segurança física etc. Isso significa que um grande provedor de conteúdo poderia colocar o seu conteúdo localmente, por exemplo, em Belém do Pará, e os usuários que consomem o seu conteúdo não precisariam vir até São Paulo para buscar esse conteúdo. As grandes redes CDN, ou seja, os grandes provedores de conteúdo, geralmente têm essa hierarquia de distribuição de conteúdo, apesar de nem todos possuírem o último nível (cache).

PS – De uma forma geral, como você vê o papel dos PTTs para o desenvolvimento ou mesmo para a melhoria da internet no Brasil?
MK – Eu acho que a grande contribuição está relacionada à organização da infraestrutura da internet. Ao ter uma estrutura de troca de tráfego robusta e conhecida, viabilizando acordos para trocar tráfego internet, estamos contribuindo para uma internet melhor e mais eficiente. Então, a estrutura de PTT ajuda nesse sentido da própria organização e, com uma rede organizada e estruturada, acaba sendo mais barato para todo mundo. Além disso, melhora a qualidade do acesso que os provedores de acesso estão oferecendo.

PS – E o projeto IX.br, tende a ser um modelo para outros países da América Latina? Como é que vocês estão ampliando esse modelo, que já é uma contribuição para a internet brasileira?
MK – Tão fundamental quanto a necessidade de se ter boa estrutura de PTT, em âmbito nacional, para melhorar a qualidade da internet em um país, é divulgar a importância dos provedores de acesso serem Sistemas Autônomos. É fundamental disseminar a cultura dos SA. Porque tem muitos provedores, mesmo brasileiros, que ainda desconhecem o que é um sistema autônomo e quais são as vantagens de se tornar um para  prover seus serviços de acesso à internet. O ideal seria que todos fossem um sistema autônomo, principalmente para terem a vantagem de participar dos PTTs. E, uma vez que as redes de conteúdo também estivessem conectadas, poderiam trocar tráfego entre si com  melhor qualidade e menor custo.

PS – Para finalizarmos, a pesquisa TIC Provedores mostra que os principais motivos alegados pelos participantes de estar presente em um PTT são melhoria de tráfego e redução do custo. Essa redução pode ser entendida como uma otimização do tráfego?
MK – Muito provavelmente. Ao conversar com alguns provedores, o que eles reportam é que, ao conectar-se a um PTT, no caso de São Paulo, por exemplo, algo como mais de 60% do conteúdo de que eles necessitam já está ali. Aliás, mais de 60% do tráfego para poder atender seus usuários finais. Isso faz com que eles tenham de contratar banda de tráfego somente do que sobra, ou quando eles quiserem fazer redundância para não ficar vulneráveis. Agora, o fato de ele ter o tráfego necessário para poder atender a seus usuários finais, evidentemente, melhora a sua qualidade porque esse conteúdo é acessado sem intermediários. Não tem gargalo nessa estrutura. O provedor transmite o conteúdo sem nenhum atraso, seja de equipamento ou enlace, que ele normalmente encontra quando contrata um link de trânsito. Então, quer dizer que, quando ele assume que reduz o tráfego da internet, é o link de trânsito. Significa que a infraestrutura necessária é mais barata e de melhor qualidade.

* O Panorama Setorial da Internet é uma publicação produzida pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), que explora temas relacionados ao acesso e uso das tecnologias em diferentes setores da sociedade. Todas as edições da publicação estão disponíveis em formato eletrônico em http://cetic.br/publicacoes/indice/panoramas.