Um dos efeitos colaterais do estouro da pandemia de covid-19 no Brasil em março foi a retração imediata do crédito para pequenas e médias empresas. Bancos subiram a régua, ficaram mais restritivos, e se antes já resistiam a conceder empréstimos aos ISPs, fecharam-se de vez diante de um cenário impossível de prever. 

Ao mesmo, os provedores viram a demanda por banda larga saltar, o tráfego em suas redes crescer até 50%, a necessidade de acelerar planos de investimento e o dólar encarecer os equipamentos de rede. Quem tinha dinheiro em caixa, usou. Quem não tinha, foi para a mesa de negociação com os fornecedores. 

“O câmbio nesse patamar não é bom porque, como a receita dos nossos clientes é em reais, limita a capacidade dos investimentos”, resumiu Celso Motizuqui, diretor comercial da Furukawa Electric. Ele participou hoje, 3, da live realizada pelo Tele.Síntese na qual se debateu o impacto da desvalorização de mais de 30% do real frente o dólar apenas neste ano sobre o setor de telecom. 

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O executivo contou que as fabricantes precisaram usar a criatividade para garantir que o cliente no aperto seguisse comprando. “No início da quarentena, muitos agentes bancários fecharam o crédito de maneira intensa. Isso fez com que a gente tivesse que trabalhar no sentido de restabelecer o crédito para nossos clientes. Além de bancos parceiros, temos linhas próprias, e criamos novas linhas, com carência e pagamento só em 12 meses”, contou. 

A Furukawa Electric também estuda um modelo que gere receita recorrente, diferente das vendas. “Estamos montando alguns pilotos no sentido de fazer locação dos nossos produtos”, revelou. 

AJUSTE NA PRODUÇÃO 

Se para o ISP a alta do câmbio encareceu a expansão da rede, para os fabricantes, insumos essenciais importados também ficaram mais caros, impactando a produção. Motizuque disse que a Furukawa renegociou com seus fornecedores e ampliou a compra ou produção local de itens que antes vinham de fora. 

“Nós conversamos com nossos parceiros lá de fora para conseguir nos suportar nesta questão da variação cambial. Também estamos desenvolvendo novos parceiros e fornecedores no Brasil. Com isso, você consegue reduzir a dependência e o efeito da variação cambial”, explicou. 

A pandemia também ampliou problemas relacionados à logística, que contribuíram para revisão do que pode ser feito aqui e do que precisa ser importado. “Criamos um comitê de crise para que a gente tome decisões mais rápidas, porque todo dia acontece algo: o frete falha, o avião não pousa, enfim. E com uma demanda aquecida, qualquer coisa que falha vai ocasionar em algum efeito para nossos clientes. Em função disso, a gente tem feito muitas adaptações na linha. Algumas coisas que nós injetávamos fora, trouxemos para fazer aqui, estamos nacionalizando”, destacou. 

Segundo os participantes do debate, apesar do aumento do câmbio, da elevação do custo do frete e da pandemia de covid-19, o consumidor está consumindo mais banda larga do que nunca. Com isso, ainda queos ISPs tenham reduzido o ritmo de investimentos, tiveram de aperfeiçoar suas redes rapidamente, a fim de atender às exigências do consumidor final.